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São Bernado

Graciliano Ramos

Resumo

Paulo Honório, homem dotado de vontade férrea e da ambição de se tornar fazendeiro, depois de atingir seu objetivo, propõe-se a escrever um livro, contando a sua dura vida de guia de cego a senhor da Fazenda São Bernardo.

Movido mais por uma imposição psicológica. Paulo Honório procura uma justificativa para o desmoronamento da vida e do seu fracassado casamento com Madalena, que se suicida. 

No livro, ao mesmo tempo em que faz o levantamento existencial de uma vida dedicada à construção da Fazenda São Bernardo, Graciliano Ramos desnuda o complexo destrutivo que o personagem Paulo Honório representa:

"Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber por quê! Comer e dormir como um pouco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?"

Apreciação

A) Este grande livro é curto, direto e bruto. Poucos como ele, serão tão honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da unidade violenta, que o autor lhe imprimiu. As personagens e as coisas surgem nele como meras modalidades do narrador, Paulo Honório, ante cuja personalidade dominadora se amesquinham, frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese deste sentimento.

De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, pisando escrúpulos e visando ao alvo por todos os meios.

 "O meu fito na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestes brenhas e pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular."

É um verdadeiro homem de propriedade, gente para a qual o mundo se divide em dois grupos: os eleitos, que têm e respeitam os bens materiais; os réprobos, que não os têm ou não os respeitam.

Daí resultam uma ética, uma estética e até uma metafísica. De fato não é à toa, que um homem transforma o ganho em verdadeiro ascese, em questão definitiva de vida ou morte.

"A princípio o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui perdendo a1i, marchando no fiado, assinando letras, realizando operações embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações de armas engatilhadas."

O próximo lhe interessa na medida em que está ligado aos seus negócios, e na ética dos números não há lugar para o luxo do desinteresse.

"(...) esperneei nas unhas do Pereira, que me levou músculo e nervo, aquele malvado. Depois, vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga."

"(...) levei Padilha para a cidade, vigie-o durante a noite. No outro dia cedo, ele meteu o rabo na ratoeira e assinou a escritura. Deduzi a dívida, os juros, o preço da casa, e entreguei-lhe sete contos quinhentos e cinqüenta mil réis. Não tive remorsos."

Uma só vez age em obediência ao sentimento da gratidão, recolhendo a negra que o alimentou na infância e que ama com a espécie de ternura de que é capaz. Ainda aí, porém, as relações afetivas só se concretizam numericamente:

"A velha Margarida mora aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu."

Com o mesmo utilitarismo estreito analisa a sua conduta:

"A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que me deram lucro."

Até quando escreve, a sua estética é a da poupança:

"É o processo que adoto: extraio das acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço."

B) A aquisição e transformação da fazenda São Bernardo leva, todavia, o instinto de posse a complicar-se em Paulo Honório com um arraigado sentimento patriarcal, naturalmente desenvolvido tanto é verdade que os modos de ser dependem em boa parte das relações com as coisas.

"Amanheci um dia pensando em casar. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar (...) O que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de São Bernado."

A partir desse momento, instalam-se na sua vida os fermentos de negação do instinto de propriedade, cujo desenvolvimento constitui o drama do livro.

Com efeito, o patriarca à busa de herdeiro termina apaixonado, casando por amor; e o amor, em vez de dar a demão final na luta pelos bens, revela-se, de início, incompatível com eles. Para adaptar-se, teria sido necessário a Paulo Honário uma reeducação afetiva impossível à sua mentalidade, formada e deformada. O sentimento de propriedade, acarretando o de segregação para com os homens, separa, porque dá nascimento ao medo de perdê-la e às relações de concorrência. O amor, pelo contrário, unifica e totaliza. Madalena, a mulher — humanitária, mãos-abertas — não concebe a vida como relação de possuidor e coisa possuída. Daí o horror com que Paulo Hónário vai percebendo a sua fraternidade, o sentimento incompreensível de participar na vida dos desvalidos, para ele.

Nessa luta, porém, não há vencedores. Acuada, brutalizada, Madalena se suicida. Paulo Honório, vitorioso, de uma vitória que não esperava e não queria, sente, no admirável capítulo XXXVI, a inutilidade do esforço violento da sua vida.

"‘Sou um homem arrasado (...) Nada disso me traria satisfação (...) Quanto às vantagens restantes — casas, terras, móveis, semoventes, consideração de políticos, etc. — é preciso convir em que tudo está fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada (...) Estraguei minha vida estupidamente (...) Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo."

Vencendo a vida, porém, ficou de certo modo vencido por ela; imprimindo-lhe a sua marca, ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer. Neste estudo patológico de um sentimento, Graciliano Ramos — juntando mais um dado à psicologia materialista esposada em Caetés — parte do pressuposto do que a maneira do viver condiciona o modo de ser ode pensar.

"Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tio ruins. E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também uma conseqüência da profissão."

"Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dados enormes."

O seu caso é dramático porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar, e por elas penetra uma ternura engasgada e insuficiente, incompatível com a dureza em que se encouraçou. Daí a angústia desse homem de propriedade, cujos sentimentos eram relativamente bons, quando escaparam à sua tirania, e descobre em si mesmo estranhas sementos de moleza e lirismo, que é preciso abafar a todo custo.

"Emoções indefiníveis me agitam — inquietação terrível, desejo doido de voltar, de tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é antes desespero, raiva, um peso enorme no coração."